A inclusão de um controverso e de mau gosto merchandising de cigarros no filme Avatar - com a fumaça das fartas baforadas de Sigourney Weaver invadindo a sala do cinema em magnífico efeito 3D - é tão lamentável quanto injustificável. Certamente, o diretor James Cameron deve ter sido seduzido por uma generosa contribuição da indústria do tabaco para o financiamento da produção, a ponto decorrer o risco de cometer esse verdadeiro suicídio profissional em um trabalho que tem a pretenção de entrar para história do cinema como uma produção revolucionária (que certamente o é, em muitos aspectos) e que prentende dar uma (infelizmente mal alinhavada) lição de moral na humanidade.

Além do roteiro se basear em um tema batido e pouco criativo - pois não passa de um mal disfarçado remaking de Pocahontas e outras histórias semelhantes - o espectador é obrigado a se deparar com esse deslocado proselitismo ao tabagismo. Um filme que pretende transmitir uma mensagem de proteção da vida integral em oposição ao descaso com a ecologia, não pode se basear no pressuposto de que, daqui a 150 anos, a humanidade ainda não terá superado a aberração do hábito de fumar, com o agravante de que o avatar de fumante no filme é entronizado por uma bióloga, que luta - suprema contradição - contra a destruição da natureza.

Além dos extensamente conhecidos malefícios do tabagismo para a saúde dos fumantes ativos e passivos, as plantações de tabaco tem um efeito devastador sobre a ecologia, causando não apenas desflorestamento, esgotamento e desertificação do solo (que normalmente se segue à exploração de grandes extensões de terra para plantação de tabaco) como pelo farto uso de agrotóxicos, altamente letais, que causam dano a inúmeras espécies animais e vegetais, inclusive o ser humano. Ou seja, um efeito tão devastador quanto os buldozers dos vilões do filme sobre as florestas de Pandora.

Se o filme quis transmitir uma mensagem de otimismo para o futuro, Cameron correu o desnecessário risco de por tudo a perder com esse lamentável equívoco. Para completar, Cameron já tinha uma série de respostas pré-fabricadas (e completamente esfarrapadas) para explicar as questões que inevitavelmente surgiriam sobre esse infeliz detalhe do filme, e que já foram levantadas pela imprensa norte-americana, inclusive pelo The New York Times, entre tantos outros veículos de comunicação e sites da Internet. Basta um breve pesquisa no Google para confirmar. Apenas para citar um exemplo, o site www.scenesmoking.org, que acompanha e classifica as aparições e referências ao tabaco nas produções cinematográficas, atribui a Avatar uma classificação imprópria, simbolizada por um ícone animado exalando fumaça: o "pulmão preto" (black lung).

As explicações de Cameron absolutamente não convencem qualquer pessoa com um mínimo de informação e bom senso. Por exemplo, diz Cameron que "Se é permitido ver pessoas mentindo, roubando e matando em filmes com a mesma classificação etária, não acho que deveríamos esconder o cigarro". Sim, um mal justifica outro e, no caso do merchandising de tabaco, o fim justifica os meios, raciocínio perfeito, irretocavelmente alinhado com a filosofia dos vilões do filme ao explorar as jazidas de mineral precioso de Pandora, que é o mesmo que a indústria do cigarro faz: destruir a natureza e matar pessoas para ganhar dinheiro. Francamente Mister Cameron...

Um dos mais engenhosos argumentos de Cameron é o de que "a personagem de Sigourney Weaver fuma como forma de criticar àqueles que desprezam a vida real e prestam mais atenção a seus avatares, na internet ou nos vídeos games". Afora ser um belo exercício de retórica e malabarismo verbal, esse argumento é absolutamente falacioso, quase surrealista. Haveriam formas bem mais criativas de apresentar esse suposto alerta subliminar. O personagem fumante, por exemplo, ficaria bem mais apropriado para o vilão da história, o Coronel Miles Quaritch, um agente de morte muito mais identificado como o que o cigarro representa para a sociedade do que a personagem de Sigorney, uma cientista cujo papel seria o de ajudar a humanidade a preservar seus mais elevados valores, em especial a própria vida e a saúde. Colocar Grace fumando em "Avatar" é quase tão herético quanto seria colocar Gandalf fumando em "O Senhor dos Anéis".

Em resumo, não há argumento capaz de defender ou explicar a presença de uma bióloga e ambientalista fumando no ambiente fechado de um sofisticado laboratório, localizado em uma tecnologicamente avançada estação extraterrestre, equipada com ar condicionado contra a atmosfera tóxica de um mundo estranho, onde o oxigênio certamente era um recurso precioso. Isso significaria no mínimo uma regressão na história, uma vez que até mesmo nos primitivos dias de hoje o fumo em ambientes fechados é praticamente proibido em quase todo o mundo desenvolvido.

A incauta expectativa de James Camerons de que o público poderia engolir passivamente suas sofríveis explicações é algo quase ingênuo, além disso, constitui uma insólita subestimação da inteligência dos analistas de cinema, da imprensa, dos intelectuais e das pessoas em geral. Como apropriadamente declarou Stanton Glantz, Diretor do The Center for Tobacco Control Research and Education, isso é como colocar "um punhado de plutônio em um reservatório de água".

Cameron declarou também que "jamais teve a intenção de fazer de Grace Augustine", a personagem de Sigourney Weaver, "um modelo ou exemplo" para os adolescentes". "Ela é rude, fala palavrões, fuma", escreveu Cameron. Só faltou ele dizer que ela também é "burra e ignorante", um perfil bem apropriado para uma cientista de alto nível encarregada de conduzir um projeto de altíssima importância e responsabilidade.

Para completar seus hercúleos esforços no afã de justificar o inexplicável (parece que ele realmente é afeito a grandes desafios) Cameron afirma que "não acredito na ideia dogmática de que ninguém deveria fumar em um filme", mas acredita na idéia dogmática de que colocar num filme um personagem fumante totalmente fora de contexto e sem propósito (a não ser do ponto de vista do financiamento do filme) não tem mal nenhum. Conclui dizendo que "Os filmes devem refletir a realidade". De fato, é de se supor que uma bióloga fumante no século XXII (o filme se passa no ano de 2.154) é algo extremamente realista. Diz ainda, que "Se é aceitável que as pessoas roubem, traiam, mintam e matem em filmes com essa censura, por que então tentar impor uma moralidade inconsistente apenas quanto ao fumo?", nesse argumento Cameron se superou, realmente, não há absolutamente nenhuma inconsistência em alguém lutar para preservar a natureza enquanto cultiva tranquilamente um câncer de pulmão aspirando fumaça com 82 cancerígenos, além das demais 4.640 substâncias tóxicas existentes na fumaça do cigarro.

Finalmente, como que para se redimir, em que pesem todas as explicações mirabolantes, Cameron conclui suas declarações sobre o assunto dizendo que "o fumo é um hábito sujo que não apoio, e tampouco, creio, Avatar o faça". Aconselho-o a ver o filme de novo com mais atenção, Mister Cameron.

Apesar de tudo isso o filme é de um valor indiscutível, além de ser uma experiência sensorial quase inigualável, uma produção de dimensões colossais e de uma criatividade quase inacreditáveis, o filme consegue apontar para um fato fundamental: Ou a humanidade dá um grande passo evolutivo em termos de consciência para realizar as grandes mudanças necessárias para preservar a vida no Planeta ou continuará em seu rumo atual de autodestruição, inclusive ao continuar a consumir cigarros de tabaco e outros venenos. Uma coisa é certa, o filme ficaria bem melhor sem essa mancha, a qual seria perfeitamente dispensável sem nenhum prejuízo ao roteiro, muito pelo contrário. Seja como for, a humanidade avança aprendendo com seus erros e James Cameron, como grande diretor que é, certamente levará isso em conta em suas próximas produções.

Fontes:

About.com - Avatar is Smoking...
Celebrity health & fitness
New York Times 1
New York Times 2
Ranking de Avatar no SceneSmoking.org
At Least Her Avatar Doesn't Smoke
Avatar: In space no-one can see you smoke
Cameron: Smoking in Avatar a Critique of Gamers
Can Hollywood quit smoking?
Blog do Stevens Rehen: AVATAR, cadeira de rodas e tabaco
Há quem acredite que seja esse o cigarro usado no filme
Último Segundo: James Cameron defende uso de cigarro em "Avatar"
Terra Cinema: 'Avatar' é mais um filme de sucesso reprovado em test...

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Comentário de Maristela Zancan em 29 abril 2010 às 10:21
Puxa, adorei a matéria ... eu tinha esse desconforto com o filme, mas ainda não o tinha esmiuçado na minha cabeça! A desculpa do Cameron é mesmo esfarrapada - talvez se justificasse um pouco (a desculpa) se o fumante fosse um "bandido", e não a mais bem intencionada dos "mocinhos".
Comentário de Rubens Mário Mazzini Rodrigues em 23 janeiro 2010 às 16:59
Angélica, es cierto. El acto de fumar revela una debilidad del fumador. Cómo usted disse, ésta es sólo una de las muchas posibles debilidades del ser humano. Así pues, el carácter fumante no haría falta a la estória, ya que hay muchas otras posibilidades para designar a su fragilidad. El mesage subliminal es la verdader intensión por detrás, puede tener certeza. Puede estar segura de que se trata de un mershandising. y no un facto casual.
Comentário de Rubens Mário Mazzini Rodrigues em 23 janeiro 2010 às 16:49
Isso mesmo, Vera. É impressionante o poder econômico da indústria do cigarro. Seu comentário é muito interessante. Eu não havia pensado nesse aspecto do ex-fumante. Fiquei pensando agora quantos ex-fumantes pelo mundo afora não terão recaído depois de ver o filme. A Souza Cruz deve estar lançando foquetes. A princípio eu havia pensado mais na juventude, uma vez que é o principal público atingido pelo filme, pois passa essa mensagem subliminar de que o cigarro não faz tanto mal quanto dizem, afinal um bióloga do ano 2154 o usa. Além de passar a idéia que a atual campanha para erradicar o cigarro não será bem sucedida, pois daqui a 150 anos o cigarro ainda estará forte e firme entre nós.
Comentário de angélica em 21 janeiro 2010 às 17:32
Cuando vi la pélicula, me llamo la atención q fumara... y reaccione con disgusto... pq soy muy antifumadores. Y no me calzaba con alguien ecologista y menos del futuro. Pero creí q este personaje requeria de mostrar su frágilidad atraves de la dependencia del cigarro, mostrando también algo antiguo, como si ella viniera del pasado... algo asi, pensé. No vi el mensaje subliminal, ni el negocio de trás de esta característica. Para mi un fumador es una persona debil, q necesita del cigarro para sobre llevar su existencia, y auto regular sus miedos. Otros somos más discretos... jejejjejeje
Comentário de vera maria vargas ferreira em 20 janeiro 2010 às 22:31
Caro Dr. Rubens: daí podemos deduzir o poder econômico envolvido no consumo. Os governantes preferem arcar com o pesado ônus que o cigarro traz à saúde pública do que abrir mão da polpuda arrecadação dos impostos que o cigarro proporciona.
Realmente a atriz deu baforadas que eu, há uns 15 anos sem fumar, cheguei a suspirar.
Do enredo sem maiores surpresas, interessante a dualidade corpo/espírito.
Comentário de Rafael martins trombetta em 12 janeiro 2010 às 13:31
Olá Rubens!

Ainda não vi o filme, pois gosto de fazer uma leitura da crítica primeiro, certamente me lembrarei de teu relato e das fontes que citou em tua crítica. E o saúdo por colocar-se ante a esse tema, e eu como ex-quase-fumante sinto, melhor, sei melhor do que ninguém, o quanto uma imagem, uma pessoa ao seu lado, puxando, sacando e acendendo um cigarro, gera um movimento subliminar na mente do outro (eu), que é necesário um grande aparato de autoanalise para superar essa droga antamente viciante que é o cigarro.
Feliz 2010!

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