O desastre do voo 4U9525 da Germanwings suscita algumas reflexões importantes a respeito dos transtornos mentais e a forma com são encarados pela sociedade em geral. Apesar dos avanços em relação a este assunto nos últimos anos ainda existe muito preconceito em relação à doença e ao doente mental.

Recentemente a Associação Brasileira de Psiquiatria cunhou o termo "psicofobia" para se referir a este preconceito e criou uma campanha de esclarecimento e combate ao preconceito. Este preconceito apresenta diversas facetas. Uma delas é a subestimação dos riscos envolvidos em alguns casos de doença mental grave.

Quando um Psiquiatras, por exemplo, indica o afastamento de um paciente do trabalho ele precisa enfrentar várias barreiras criadas pelo preconceito, a começar pelas empresas, que tendem a ver com maus olhos quem é afastado por doença mental. A seguir, pelos próprios colegas de trabalho, que muitas vezes passam a tratar a pessoa com discriminação. Além disso, é bastante comum que após o retorno ao trabalho o paciente passa a sofrer bullying por parte dos chefes e colegas ou são demitidos sumariamente. E, lamentável e não raramente, o doente enfrenta até mesmo o preconceito de peritos não especialistas, que colocam em cheque os motivos do afastamento, duvidando da validade da indicação, muitas vezes suspeitando de simulação ou má fé. 

Em função disso, muitos pacientes resistem, eles mesmos, a aceitar a indicação de afastamento com medo das consequências. Não é possível afirmar com certeza que tenha sido este o caso do piloto alemão, mas há grande probabilidade de que o fato de ele ter vários atestados de dispensa ao trabalho guardados e, portanto, não apresentados, tenha relação com estas formas de psicofobia. A questão se torna ainda mais difícil quando se trata de uma indicação de internação psiquiátrica, que tem por objetivo proteger tanto o paciente quanto terceiros dos riscos eventualmente decorrentes da doença. 

Este preconceito deu ensejo, inclusive, ao surgimento de um movimento, auto-denominado "antimanicomial" que levou ao fechamento de inúmeros hospitais psiquiátricos e extinção de milhares de leitos psiquiátricos no Brasil e no mundo. Só no Brasil, desde 2001, quando foi promulgada a Lei Federal 10.216, alcunhada de "Lei da Reforma Psiquiátrica, sob a influência do referido Movimento Antimanicomial, ao menos 17 mil leitos psiquiátricos foram extintos em todo o País, criando enormes dificuldades para o tratamento de casos graves. Esta pressão tem sido exercida também sobre os Hospitais de Custódia e Tratamento, destinados ao tratamento de doentes inimputáveis, fazendo com que muitos deles tenham sido extintos, colocando estes pacientes em situação de risco social para si mesmo e para terceiros sem que tenham o atendimento devido por incapacidade da rede de saúde básica em atender a demanda extra criada.

Infelizmente, é comum que sejam necessárias tragédias como esta do airbus da Germanwings para abalar a opinião pública de modo que estas questões sejam devidamente examinadas e consideradas com a seriedade e profundidade que merecem.


 

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