Uma das grandes polêmicas das modernas ciências do comportamento é sobre o quanto o comportamento e a personalidade das pessoas depende da genética ou do aprendizado. Uma das questões que tem sido alvo do interesse da neurociência evolucionista é o altruísmo, ou de por que as pessoas abrem mão de parte de seu bem estar, patrimônio ou segurança para ajudar o próximo, um comportamento aparentemente contrário às leis de evolução, pois um comportamento individual que coloca em risco a sua descendência genética não poderia ser favorecido pela seleção natural, tais como o de um soldado que se arrisca para salvar um companheiro ou de um doador de sangue ou de órgãos.

 
Um estudo realizado por Adrian V. Bell e colegas na Universidade da Califórnia* concluiu que o altruísmo é um comportamento mais determinado pelo aprendizado social do que pela genética. Os pesquisadores utilizaram uma equação matemática, chamada equação de Price, que descreve as condições para o desenvolvimento do altruísmo. Essa equação motivou os pesquisadores a comparar a diferenciação genética e cultural entre grupos sociais vizinhos. Utilizando estimativas previamente calculadas de diferenças genéticas eles utilizaram um questionário, chamado Escala Mundial de Valores (cujas questões são amplamente influenciadas pela cultura em um grande número de países) como uma fonte de dados para calcular a diferenciação cultural entre os mesmos grupos vizinhos. Quando comparados, os resultados levam à conclusão que o papel da cultura tem uma influência muito maior para explicar o comportamento pró-social do que a genética.

 
Nas sociedades ancestrais, práticas culturais punitivas de comportamentos anti-sociais, tais como a exclusão do mercado matrimonial, condenação moral, negação dos frutos de atividades cooperativas, banimento, prisão e execução, exerceram forte pressão sobre a seleção contrária a genes que tendem a favorecer o comportamento anti-social e, presumivelmente, favorável aos genes que predispõe os indivíduos a ter comportamentos pró-sociais. Isso resultou em uma co-evolução cultural e genética da propensão humana para o comportamento pró-social.


Uma questão que pode ser levantada a partir do presente estudo é qual a influência que terão os atuais padrões de controle social mais permissivos associados a altos níveis de impunidade na seleção gênica e na composição genética das futuras gerações? Padrões esses que, em algumas sociedades, até mesmo incentivam o uso da violência (inclusive uso de armas) na resolução de conflitos ou, em outras, como é o caso da sociedade Brasileira, incentivam o uso do engodo, da esperteza, da falcatrua e da corrupção na busca de objetivos individuais. O que poderá vir a acontecer com a carga genética dos indivíduos de uma sociedade na qual, como já dizia Ruy Barbosa, "de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto"?

* Adrian V. Bell, Peter J. Richerson, and Richard McElreath. Culture rather than genes provides greater scope for the evolution of large-scale human prosociality. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2009; DOI: 10.1073/pnas.0903232106

Exibições: 725

Comentar

Você precisa ser um membro de Projeto Crisálida para adicionar comentários!

Entrar em Projeto Crisálida

Comentário de Rubens Mário Mazzini Rodrigues em 19 janeiro 2014 às 14:56

Evidência da influência cultural sobre a genética:

http://j.mp/1dlb4dY

Badge

Carregando...

Sobre

© 2017   Criado por Projeto Crisálida.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço