"Nós somos a evolução tornando-se consciente de si mesma".

                                                                                            Julian Huxley

 

          Em uma pesquisa recente nos EUA foi encontrado que 91% dos norte-americanos acreditam em Deus e 50% aceita a teoria da evolução; duas crenças aparentemente incompatíveis. Isso demonstra que existe uma larga faixa de pessoas que já estão aptas a aceitar um novo paradigma que seja capaz de conciliar essas duas visões de mundo. Este novo paradigma é a Visão Evolucionária.


          Segundo a Visão Evolucionária, proposta por Julian Huxley, a ideia de religião, conforme a conhecemos, está morrendo. As crenças centradas em uma fé no sobrenatural estão destinadas ao declínio e em vias de extinção, tal qual uma espécie animal que não consegue se adaptar ao ambiente em que vive. O ser humano evolucionário não pode mais se refugiar de sua solidão nos braços de uma figura divinizada criada por ele mesmo, nem escapar da responsabilidade de tomar decisões se colocando embaixo das asas de alguma autoridade sobrenatural, nem se omitir da tarefa de encarar os problemas atuais da humanidade e planejar seu futuro sem apelar à vontade onisciente da "Divina Providência". Mais do que simplesmente proclamar a morte da religião, a Visão Evolucionária nos permite vislumbrar, embora ainda não completamente, os alicerces de uma nova religiosidade mais adaptada às necessidades e desafios da nossa era.

 

          Existe uma resistência à aceitação deste novo pardigma, tanto por parte das hostes religiosas quanto das  academias científicas. Isso ocorre porque ambas as partes continuam apegadas a uma visão de mundo ou a um corpo de conhecimentos que vem defendendo ao longo dos último séculos, logo, abrir mão dessas visões, implicaria em perda de seu orgulho e poder. Para a ciência, a ideia da evolução das espécies tem sido o grande bastião para a negação da existência de Deus e, por sua vez, essa tem sido o grande obstáculo para a aceitação do evolucionismo por parte dos crentes e das mais diversas tradições religiosas. Entretanto, a Visão Evolucionária está viva e crescente nos corações e mentes de milhares de indivíduos ao redor do mundo que, através dela, estão descobrindo e explorando novas perspectivas culturais, novas epifanias filosóficas e novas visões da religiosidade, todas baseadas na ideia da Evolução, que passa aqui a ser grafada com "E" maiúsculo para diferenciar da mera visão Darwiniana da evolução das espécies. A Evolução não é apenas uma ideia científica e nem mesmo uma ideia original de Darwin, antes dele, desde o século XIX, já haviam pensadores que se baseavam nessa perspectiva, inclusive Lamarck, cuja teoria teria sido superada pela de Darwin (embora a verdade não seja assim tão simples).

 

          Para encontrar essas pessoas, precisamos procurar fora dos muros convencionais das academias e além das arcaicas estruturas das tradições religiosas. Tem sido assim ao longo da história, a quebra de paradigmas costuma surgir a partir de idéias de pessoas que correm "por fora" dos estreitos limites dos muros acadêmicos e dos dogmatismos religiosos. O Cristianismo surgiu da visão um homem que contestou as bases do Judaísmo; a psicanálise surgiu das idéias de um homem que sacudiu as crenças do ser humano sobre si mesmo; a física moderna surgiu das reflexões de um homem que abalou os alicerces da física newtoniana; a moderna filosofia surgiu das idéias de um filósofo e professor rejeitado pela academia, Georg Hegel, criador do método dialético, que deu sustentação ao surgimento do Marxismo e da teoria da evolução das espécies. Todos esses pensadores tiveram suas idéias rejeitadas ou combatidas antes de serem universamente aceitas pelo meio acadêmico ou religioso. Darwin e Marx desenvolveram teorias que atacaram as bases das crenças religiosas e ambos se basearam na mesma ideia fundamental:  Evolução. Darwin a aplicou à biologia e Marx às estruturas econômicas e ao processo histórico. Ambos enxergaram além da visão de que as coisas são como são ou que são como foram criadas pelo Criador e levaram em conta o fato de que aquilo que é em um dado momento não passa de um corte momentâneo em um processo dinâmico e evolutivo de constantes transformações.

 

          O motivo pelo qual nos apegamos tão firmemente às ciências físicas não é porque elas sejam mais bem documentadas do que o evolucionismo, mas porque elas são essenciais ao nosso estilo de vida atual. Sem elas não podemos construir pontes, dirigir carros e voar em aviões. O motivo pelo qual nos apegamos tão firmemente às antigas tradições religiosas é que elas nos oferecem alívio para as ansiedades vitais e nosso medo da morte e do desconhecido. A ideia de Deus é apenas uma concepção da mente humana para poder falar sobre o incognoscível. Logo, discutir a existência ou não dessa ideia é algo irrelevante. Já, a Evolução não é uma questão de fé, é um processo quase óbvio, facilmente constatável. O que interessa para nós no final das contas é compreender melhor esse processo evolucionário do qual, querendo ou não, fazemos parte, sendo que, será certamente melhor para nós se estivermos alinhados com ele do que ficarmos remando contra a corrente, pois, como diz Leonardo Boff, "esse é um processo que não pode ser negado". O apego aos antigos paradigmas só serve para retardar o avanço do conhecimento. A oposição mais comum é a associação que as tradições religiosas fazem entre pensamento evolucionário com ateísmo e materialismo.

 

          A ideia da Evolução é um corte epistemológico na ontogênese do conhecimento humano e é, portanto, irreversível. Entretanto, suas possibilidades ainda não foram plenamente exploradas. A Visão Evolucionária extrapola as aplicações limitadas da idéia da Evolução até agora desenvolvidas e está afetando todos os aspectos do conhecimento e da vida humana: desde nossas concepções da biologia, da política, da sociologia e da econômica, como da psicologia, da genética, da ecologia, da filosofia, da cosmologia e, até mesmo, da religiosidade ou espiritualidade. A ideia de Evolução é o princípio organizador de uma nova visão de mundo desenhada sob medida à realidade do século XXI. Nada na cultura humana faz sentido se não for examinado à luz da Evolução. Segundo Teillard de Chardin, a Evolução é mais do que uma hipótese ou teoria, é uma condição geral à qual todos os sistemas precisam estar vinculados, sob pena de não serem aceitáveis ou verdadeiros.

 

          No atual momento histórico, estamos na fase inicial da construção de um visão de mundo coerente que incorpora as concepções transformadoras da perspectiva evolucionária. Nesta concepção, a dicotomia entre ciência e religião ou criacionismo e evolucionismo não tem mais lugar, pois ambos os aspectos precisam ser levados em conta para se compreender a realidade em toda a sua complexidade. O aspecto religioso ou espiritual se refere ao fenômeno ainda desconhecido que conduz o processo evolutivo criando ordem a partir do Caos. No que diz respeito à vida esse fio condutor foi denominado por Rolando Toro de Princípio Biocêntrico, segundo o qual o cosmos se revela interna e externamente em nós. As descobertas científicas a respeito da história do nosso Universo em evolução está se desenvolvendo mais rapidamente do que a capacidade do público em digerir as mudanças. Porém, a Visão Evolucionária não está sendo construída apenas pela ciência, ela envolve a evolução da tecnologia, a evolução da consciência, a evolução da informação, a evolução das relações humanas, a evolução dos valores, a evolução da ética e da moral e a evolução da espiritualidade e religiosidade.

 

          Levada às últimas consequências de seu espectro de possibilidades a Visão Evolucionária se aplica a uma nova cosmologia, de forma a se constituir em um autêntico ponto de contato entre ciência e espiritualidade. A esse respeito, a Evolução tem uma capacidade única de ser fonte de satisfação espiritual, de significado e propósito autêntico, renovando nossa fé nas possibilidades de futuro e nos inspirando a alcançar nossos mais altos potenciais, individual e coletivamente, inclusive através de uma tomada de consciência sobre o nosso papel no processo evolutivo do Universo. Ao explorar de onde viemos, do que somos feitos e os fatores que nos moldaram, o pensamento evolucionário tem muito a dizer sobre o que nos faz humanos, sobre que potenciais e possibilidades influenciam não apenas nossos cérebros e nossa biologia, mas também nossa consciência e capacidade criativa.

 

          Parafraseando Rolando Toro:

"As estruturas complexas adaptativas do Universo são da mesma natureza das que se observam nos microssistemas do organismo humano. Há uma continuidade ainda desconhecida entre a mente cósmica e a
mente humana".

 

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Comentário de rejane baques soares em 8 julho 2012 às 19:54

Gostei muito do texto. Acho que esta quebra de paradigma é um momento necessário para que possamos sobreviver como espécie e continuar evoluindo na busca do entendimento da nossa existência.

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