Os mitos e ritos eram meios de colocar a mente em acordo com o corpo, e o rumo da vida em acordo com o rumo apontado pela natureza. A mente pode divagar por caminhos estranhos, querendo coisas que o corpo não quer. Assim sendo, os mitos antigos foram concebidos como uma forma de promover harmonia entre a mente e o corpo.

 

Os arquétipos são elementos presentes em muitos mitos e representam padrões, atitudes, comportamentos comuns do ser humano perante a existência ao longo dos séculos. Um arquétipo tem o poder de orientar-nos, evocando o conhecimento acumulado na memória coletiva (inconsciente coletivo) sobre as experiências da alma e os processos que ocorrem na psique objetiva.

 
O Arquétipo da Criança Sagrada:
 

A Criança Sagrada aparece na tradição religiosa ou mitológica de diversas culturas ao longo da história e apresenta algumas características em comum que não se devem a mera coincidência. São diferentes expressões de um mesmo princípio arquetípico, que corresponde a uma necessidade humana básica: a necessidade de evolução espiritual.

  • "A criança divina diz respeito ao eixo central que, tendo uma origem narcísica, permite a coesão do self. Trata-se de uma representação do “sopro divino”, de uma integração com a natureza, de um saber direto, intuitivo". (Carl Jung)
  • “A menor das crianças esta mais próxima de Deus, assim como o menor dos planetas está mais próximo do Sol”. (Richter)
 
Uma das características da Criança Sagrada é que ela já surge completa, nada lhe falta, além de ser pura e sem mácula, livre de pecado, segundo a tradição cristã, e possui uma sabedoria inata.
 
A Criança Sagrada na Mitologia Grega:
 

Na antiga Grécia a Criança Sagrada surge no mito da deusa Démeter (Ceres) e sua filha Perséfone, que foi raptada por Hades (Plutão) - deus dos mortos – a quem foi entregue por Zeus para que a torna-se sua esposa. Démeter representa a deusa Mãe (versão grega do arquétipo maternal), responsável por todas as formas de reprodução da vida, inclusive da fertilidade do solo, das plantações e da colheita. Démeter era a protetora das mulheres e uma divindade do casamento, da maternidade, do amor materno e da fidelidade. Perséfone é donzela e representa o arquétipo da virgindade. Zeus disfarçou-se de serpente para seduzir Perséfone. Dessa união nasceu Dionísio(Baco), a Criança Sagrada da mitologia grega. Dionísio representa a alegria, a busca do prazer e diversão, e a espontaneidade, atributos próprio da criança. Dionísio foi o criador do vinho (bebida da alegria). No seu templo, durante a festa dionisíaca (Festival de Dionísio ou Bacanal), em que se comia e bebia em abundância havia uma fonte de água que se transformava em vinho. O Culto a Dionísio (Baco) era muito proeminente no império romano na época em que o cristianismo se firmou como a religião oficial do Império. Dionísio é geralmente representado sob a forma de um jovem imberbe, risonho e festivo, de vasta cabeleira, tendo em uma das mãos, um cacho de uvas ou uma taça, e, na outra, um tirso (um dardo) enfeitado de folhagens e fitas.

 
O Mito de Eros:
 

Outra expressão da Criança Sagrada na mitologia grega é Eros(Cupido), filho de Afrodite (Vênus), que apaixonou-se pela princesa Psique, uma mortal, a quem, a pedido de Eros, Zeus concedeu a imortalidade. O Eros Criança, armado com um arco e flechas, tem sido uma das personagens favoritas de pintores e escultores, representando o arquétipo do amor romântico. Eros representa a força poderosa que faz com que todos os seres sejam atraídos uns pelos outros, e pela qual nascem e se perpetuam todas as raças.

 
A Criança Sagrada do Judaísmo:


A mitologia judaica também tem uma Criança Sagrada, representada por Moisés. Moisés também é tido como um salvador, que libertou o povo judeu do cativeiro no Egito, e conhecido como Legislador, Portador dos Dez Mandamentos, fundador das bases da cultura israelita. A história de um bebê colocado num cesto já havia aparecido no mito de Sargão de Akkad por volta de 2.250 a. C. Depois de nascer, Sargão foi posto numa cesta de vime para evitar a morte num infanticídio, e em seguida lançado ao rio. Foi depois salvo e criado por Akki, uma esposa da realeza Acádia, mostrando um interessante paralelo com o mito judaico e cristão.

 

A Criança Sagrada do Cristianismo:
 

No mito cristão a Criança Sagrada é representada pelo Menino Jesus, ou Deus Menino, uma criança prodígio capaz de fazer milagres e debater com os sacerdotes do templo aos 12 anos de idade (sabedoria inata). Na tradição cristã o Menino Jesus parece ter uma existência autônoma e paralela ao Jesus adulto, como se fossem duas divindades distintas. Aparece representado em estátuas como uma criança carregada por diversos santos (semi-deuses do cristianismo), dos quais opera como mentor.

 
A Criança Sagrada no Japão:
 

Anualmente é realizado na cidade de  Kyoto o Festival de Gyon, dedicado à Criança Sagrada Chigo, símbolo da pureza. Todo ano é escolhida uma criança, de uma das famílias mais conhecidas de Kyoto, para representar Chigo. Ser escolhido para representar Chigo é considerado uma grande honra para a criança e sua família. Chigo é carregado por adultos e conduzido em um carro alegórico há muitos metros acima do solo para não tocar o chão para cortar a má sorte e as influência malignas. Chigo atua como um intermediário entre Deus e o povo. Outras crianças participam do festival realizando uma espécie de dança sagrada num ritual de purificação que atrai bençãos divinas e prosperidade para a cidade.

 
A Criança Sagrada do Paganismo:
 

O paganismo que dominou a Europa pré-cristã e se estendeu por uma grande área, assumindo diversas formas. A mais conhecida é a filosofia Wicca, que surgiu com os antigos Celtas, nas regiões da Inglaterra, Irlanda e País de Gales. Está relacionada ao culto às forças da natureza e antigos ritos pagãos. A religião Wicca celebra 8 datas (Sabaths) sintonizadas com as estações do ano e com a posição do sol que rege a vida na Terra (Roda do Ano) : Samhain (o Halloween), Yule, Imbolc, Ostara, Beltaine, Litha, Lammas e Mabon. Em Yule, acontece no hemisfério norte por volta do dia 21 de dezembro, a festa do solstício de inverno, na qual o deus é a Criança Sagrada e a deusa é a Mãe. A Criança Sagrada, o Menino Sol , filho da Grande Deusa, nascerá trazendo a Luz ao Planeta, assim também marca o retorno da força solar. Em Yule é tempo de celebrar o início de todas as coisas e devemos meditar sobre novos projetos, novos amores, nova vida. O pentagrama, um dos muitos símbolos usados na tradição Wicca, representa as forças da natureza: Espírito, Ar, Água, Terra, e Fogo.

 
A Criança Sagrada no Induísmo:
 

O deus menino Krishnaé a deidade mais popular em toda a Índia. É considerado o oitavo avatar (reincarnação) de Vishnu, um dos deuses da Trindade Sagrada Hindu. O nascimento de Krishna é celebrado anualmente na Índia no festival Krishnashtami, equivalente ao Natal. Por volta da meia noite, na noite de Ashtami, uma imagem de argila de Krishna é feita em cada lar Hindu e, então, adorada por todos. A festa é muito popular entre as crianças hindus que no final recebem balas e presentes. Krishna é filho de uma princesa chamada Devaki e seu marido Vasudeva e seu nascimento foi anunciado por uma estrela no ocidente. Foi visto como uma ameaça pelo rei Kamsa, de Mathura, que tentou mandar matá-lo, devido a uma profecia que dizia que ele morreria nas mãos do oitavo filho de Devaki. De acordo com o Bhagavata Purana, Krishna foi concebido sem relação sexual, mas sim por uma transmissão mental da mente de Vasudeva para o útero de Devaki. Novamente são evidentes os paralelos com a mitologia Cristã.

 
A Criança Sagrada da Nação Lakota:
 

Lakota é uma das 7 tribos do povo Sioux, nativos da América do Norte. A palavra criança na linguagem Lakota é Wakan Yeja, cuja tradução literal é ser sagrado. Essa é uma crença central na visão de mundo dos Lakotas, na qual toda a criação é tida como sagrada. Na tradição Lakota, como nas demais tradições Indígenas Norte-americanas, não há divisão clara entre sagrado e profano. Para eles toda vida é sagrada. Seres humanos são essencialmente seres sagrados. Como um ser sagrado em uma criação sagrada, na qual todas as demais coisas criadas são sagradas, temos como responsabilidade primária honrar e respeitar tudo a nossa volta como sagrado. Somos espírito e carne, sagrados e materiais, mas, quando colocamos nosso aspecto sagrado em primeiro lugar, isso pode mudar o modo como vemos todo o resto. Essa pode ser um modo de ver a vida que é fundamentalmente diferente  da forma como nossa sociedade – muitas vezes anti-ética – vê a vida. O primeiro princípio Lakota que estabelece a visão das crianças como seres sagrados é o conceito Mitakuye Oyasin, que significa Somos Todos Um.

 

A Criança Sagrada na Mitologia Nativista Brasileira:

 

O Negrinho do Pastoreio e o Saci Pererê apesar da semelhança são dois mitos de origem distinta. O Negrinho é um produto de sincretismo religioso no Pampa Gaúcho com conotações mais cristãs do que africanas. A crença popular é de que tem o poder de ajudar a encontrar coisas perdidas. O Saci é uma entidade muito popular no folclore brasileiro. No fim do século XVIII já se falava dele entre os negros, mestiços e Tupis-guarani, de onde se origina seu nome. Com a influência da mitologia africana, o Saci se transformou em um negrinho que perdeu a perna lutando capoeira, além disso, herdou o pito, uma espécie de cachimbo e ganhou, da mitologia européia, um gorrinho vermelho (talvez a alusivo a Santa Claus, o atual Papai Noel). O Saci é muito brincalhão, ele se diverte com os animais e com as pessoas fazendo travessuras, como: fazer o feijão queimar, esconder objetos, etc. O cavalo era uma de suas vítimas preferidas.

A função original desta "divindade" era o controle, sabedoria, e manuseios das plantas medicinais. Também lhe era atribuído o domínio das matas onde guardava estas ervas sagradas, e costumava confundir as pessoas que não pediam a ele a autorização para a coleta destas ervas. Com o objetivo de diminuir a importância da comemoração do Halloween no Brasil, foi criado, em 2005, o Dia do Saci (31 de outubro). Uma forma de valorizar mais o folclore nacional, diminuindo a influência do cultura norte-americana em nosso país.Infelizmente ainda não foi adotado popularmente.

 
A Criança Sagrada na Literatura:
 

Mesmo não sendo uma obra religiosa o Pequeno Príncipede Saint Exupery, de certa forma também é representativo da Criança Sagrada. Além de ter se tornado um ícone sagrado da moderna cultura ocidental, vem sendo cultuado a mais de duas gerações como uma entidade quase divina, com sua mensagem poética de inesgotável sabedoria. Quanto mais lemos o Pequeno Príncipe, mais apreendemos lições, pois a obra dá margem a múltiplas leituras, levantando muitas das questões existenciais que há séculos intrigam – e assombram - a humanidade. O poder desse pequeno manuscrito é impressionante: mesmo grandes intelectuais se sentem desamparados diante desse garotinho louro, cuja aparência reúne todos os símbolos da ternura: cachecol, pantalonas, sapatinhos delicados, faces rosadas, cabelos louros desarrumados, enfim, a de um anjo.

 
A Criança Sagrada no Teatro:
 

Peter Pan é um personagem criado por J. M. Barrie, que começou como uma peça de teatro, e virou livro para crianças com várias adaptações inclusive, para o cinema e, até mesmo, gerou uma teoria psicológica: o “Complexo de Peter Pan”. Barrie inventou Peter Pan quando contava histórias aos filhos da sua amiga Sylvia Davies, com quem mantinha uma relação de amizade muito especial. O filme Em Busca da Terra do Nunca,com Johnny Depp no papel de Barrie, retrata essa história sobre como a peça Peter Pan foi criada, mostrando as relações entre James M. Barrie, Sylvia e os garotos Davies, motivo pelo qual até se tornou suspeito de pedofilia.

 
Propriedades da Criança Sagrada:
 

A Criança Sagrada é aquela que não perdeu a consciência da sua origem, o fundamento do ser. É ela quem melhor expressa as qualidades relacionadas aos nossos valores espirituais: a essência divina da humanidade. Um dos aspectos da Criança Sagrada é uma retidão intrínseca, uma sabedoria natural, um valor privado de existência, trazido para o mundo ao invés de resultar dele, uma qualidade de atenção ou de “estar ali”, que é um direito inato do homem, mas que ele com muita freqüência perde. Quaisquer que sejam os valores que a Criança Sagrada represente, são inseparáveis do nosso Ser. São os valores da nossa origem na natureza. A emergência da Criança Sagrada poderá purificar a alma, trazer a fonte original de poder e transformação. A Criança Sagrada tem asas, voa acima das limitações humanas, pois está diretamente conectada ao divino. Com suas asas a Criança Sagrada pode levar-nos ao que é bom, verdadeiro e belo.

 
O Papel da Criança Sagrada:
 

O papel da Criança Sagrada é inspirar o despertar do Reino de Deus dentro de nós. Este Reino não é uma realização material, mas sim espiritual, não é um "lugar", mas um estado de consciência mais amplo. Representa a evolução da consciência ou do espírito humano em busca de um estado de plenitude, paz, equilíbrio e harmonia interior. A Criança Sagrada é quem nos traz o amor incondicional, a confiança original, a leveza para “entrarmos” nesse "Reino". A Criança Sagrada, brinca, tem alegria e espontaneidade. É a manifestação do Eu Superior, a essência maior que faz a travessia do espiritual sutil ao espiritual manifesto. Por isso, disse Jesus: “Deixai as crianças virem a mim. Não as impeçais, porque a elas pertence o reino de Deus. Em verdade vos digo: quem não receber o reino de Deus como uma criança, não entrará nele”.

 
O Solstício de Inverno:
 

Nas datas entre 21 e 25 de Dezembro era comemorado, em várias civilizações antigas, o Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. O solstício anunciava o nascimento do Sol como um deus-criança, o Sol que estava fraco e nessa época do ano, crescia, assim como um bebê, trazendo de volta a primavera e o verão. Em função disso, a data escolhida para o nascimento dos diferentes avatares da Criança Divina foi o 25 de dezembro. A civilização celta, por exemplo, festejava esse dia, que chamavam Yule, com a Árvore Mágica de Yule - um pinheiro enfeitado com os símbolos da primavera, que pode muito bem ser a origem da atual Árvore de Natal. O Cristianismo se apropriou dessa data mitológica para a comemoração do nascimento de Jesus, como um recurso para que os pagãos aceitassem com mais facilidade a nova religião.

 

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